25 de julho de 2006

O passado à sua frente.

Nos anos 60, quando a ciência cognitiva era amadora e seus testes experimentais envolviam longos solos de guitarra e viagens alucinógenas, Richard Farina, o autor e cantor da contracultura, escreveu um livro chamado Been down so long it looks like up to me.
Como li o livro há tempo, lembro-me pouco dele, porém me recordo que o título me intrigou. Significaria "estou na fossa há tanto tempo que o próprio abatimento agora me parece bom"?
Quarenta anos depois de sua publicação, pesquisadores escreveram um artigo para a revista Cognitive Science intitulado With the future behind them (Com o futuro atrás deles). Pelo título, parece seqüela do livro de Farina.
Não exatamente. O artigo debate provas de que aqueles que falam a língua aimará, nação indígena que se espalha por Peru, Bolívia (é a etnia do presidente Evo Morales) e Chile, avaliam o tempo de forma totalmente diferente. Para eles o futuro está atrás e o passado à sua frente.
O título completo do artigo é Com o futuro atrás deles - Evidências convergentes da língua e gestual aimará na comparação translingüística da interpretação espacial do tempo. A pesquisa sugere que há ciências outras além da toxicologia que o transportam para uma viagem como a de Alice ao País das Maravilhas.
Parece que os seres humanos começaram a combinar tempo e espaço muito antes de Albert Einstein pegar um pedaço de giz. Em lugar de equações, contudo, usamos as metáforas conceituais, em que espaço é usado no lugar do tempo. Muitos de nós concebemos o futuro como algo diante de nós ou à nossa frente, e o passado, atrás.
Até que a visão dos que falam o idioma aimará fosse decodificada, nenhuma exceção importante a essa forma tradicional de pensar sobre o tempo chegou a ser demonstrada. É o que escrevem Rafael Nunez, cientista cognitivo da Universidade da Califórnia em San Diego, e Eve Sweester, lingüista da Universidade da Califórnia em Berkeley.
Porém os aimarás chamam o futuro de qhipa pacha timpu, significando atrás do tempo, e o passado eles tratam como nayra pacha timpu, indicando o tempo à frente. Gesticulam à sua frente quando lembram coisas do passado, e acenam para trás quando falam do futuro.
Os gestos seriam janelas para as mentes das pessoas que falam aimará, com uma concepção de futuro e de passado diferente de qualquer outro povo.
Os autores dizem que aqueles que falam a língua acham que o primordial é a diferença entre o que é conhecido e o que não é - e o que é conhecido é aquilo que está diante de você, que você vê com seus próprios olhos.
O passado é conhecido, portanto está na sua frente (nayra, ou "passado", literalmente significa "olho e visão", e também "frente"). Já o futuro é desconhecido e assim fica atrás de você, onde você não pode enxergá-lo.
Se a teoria estiver correta, ela é bem mais importante do que qualquer uma das viagens em que se apostou nos anos 60.
É possível que as concepções de tempo possam variar tanto por causa da linguagem e da cultura? E como será pensar assim?
Como posso entender que o passado é passado se está diretamente na minha frente? E o que dizer de outros aspectos do espaço que usamos metaforicamente - em cima, embaixo, dentro, fora, alto?
As pessoas podem se sentir no alto quando estão tristes, ou ficar abatidas quando estão em alta? Certamente você poderia estar tanto tempo embaixo que é como se estivesse no alto.
Nos anos 60, que vejo diante de mim agora, um bando incongruente de gozadores, professores universitários e guitarristas está acenando com a cabeça, em concordância. Que viagem estranha está à nossa frente.
James Gorman, The New York Times, traduzido no Estado de São Paulo, 9/7/2006.
(tire suas próprias conclusões / achei esse artigo no blog do Leonardo Ferrari / na agência / ao som de Brighter than Sunshine - Aqualung / pensando na vida / com sono / tomando água / categoria do post: "quadrado também é cultura")