21 de junho de 2006

A arte de não escrever.

Não tem como negar: escrever é uma arte. Uma arte que atravessa milênios e que persiste divulgando idéias, contando histórias e (por que não?) vendendo. É a arte que eterniza todo o conhecimento do mundo.

William Shakespeare, comprovando que realmente era um artista, conseguiu alterar e imortalizar a mensagem de uma história. A Tragédia de Romeu e Julieta, escrita inicialmente por Arthur Brooke, passava uma mensagem completamente diferente da proposta por Shakespeare. Na história original, Brooke faz o ódio predominar como respeito. Julieta não podia desrespeitar os pais e toda a tradição de sua família em busca de um amor. Para Shakespeare, o ódio era repugnante. Mesmo que o ódio tivesse vencido, o amor conseguiu ser imortalizado com um dos gestos mais temidos pelos humanos: a morte.

Mas assim como qualquer outro estado da arte, escrever tem os seus altos e baixos. Não é tudo cor-de-rosa como o sentimento de Romeu por Julieta. Os dias passam, as noites passam, e você tem que dar um fim, às vezes um começo, para aquele assunto, personagem ou slogan. Escrever é saber se expressar estratégicamente, criando sempre uma nova maneira de fazer o leitor se interessar pelo seu texto até o fim. Nem que, para isso, você tenha que contar histórias sem fim.

O Rei Shahryar matou a mulher após descobrir que ela o traía. Acabou perdendo a confiança nas mulheres e, a partir daí, casa todos os dias com uma mulher diferente, matando-a no dia seguinte. Muitas mulheres morreram antes da chegada de Scheherazade, que conseguiu entreter o Rei durante mil e uma noites com suas histórias sem fim. O livro das Mil e Uma Noites nada mais é que uma união de histórias inventadas e preservadas oralmente pelo povo persa. Escritas para serem imortalizadas.

Todos que já tentaram escrever uma redação na vida, mesmo que tenha uma fórmula para fazer uma introdução, sabem que escrever é realmente uma arte. E não adianta tentar desenvolver uma história em 5 minutos, com no mínimo 30 linhas, para sair rápido da prova. Como disse Cristovão Tezza no Jornal Rascunho de maio, "Um texto escrito com facilidade será lido com dificuldade".

Por isso, a arte de não escrever consiste em ter paciência. Pensar e aguardar um insight criativo durante o banho não é suficiente. É preciso testar. Escreve, apagar, pedir opiniões, ler e reler. Se você realmente quiser imortalizar um amor, vai precisar fazer isso. E para aqueles que não possuem nem um tema inicial, que escrevam sobre a dificuldade de escrever.

(texto publicado na segunda edição do Quadrado / na agência / ao som dos coolers dos computadores / na correria do dia-a-dia / com fome / tentando ler "Eram os Deuses Astronautas?", "Os Piores textos de Washington Olivetto" e "Harry Potter and The Half Blood Prince - Adult Edition" / quero comprar o livro "Dia do Curinga", do Jostein Gaarder, mas não tenho dinheiro... / categoria do post: "texto Quadrado")